quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Minhas Mulheres


Tenho um sonho recorrente. Desde criança. Mato alguém quase sem querer, escondo o corpo e passo a viver em sobressalto com a possibilidade da descoberta do assassinato. Assassinato cometido por mim. Era uma situação estranha...alguém cruzou o meu caminho. Alguém que não devia ter me olhado, não devia ter prestado atenção em mim, uma testemunha do meu rosto que não devia ter sido visto. Então mato e passo a viver pensando: alguém vai descobrir o corpo. É um sonho assustador.
Hoje percebo que minha vida tem muito desse sonho. Vivo me colocando em situações que não quero compartilhar. Sou repleta de muitas mulheres diferentes que não querem ser descobertas. E tem um agravante: são mulheres fortes, cheias de impulsos de ação. São mulheres que não aceitam que eu as coloque numa gaveta e as tranque. Já tentei! Já consegui por algum tempo. É sempre quando sinto o conforto da estabilidade emocional. Sempre que tenho a possibilidade de colocar meus sentimentos em caixas de presente abertas para todo mundo ver. Diante da possibilidade de me juntar as mulheres cheias de virtude e obediente as regras sociais; obedientes aos compromissos sem questionamentos. Então pego minhas mulheres selvagens e coloco todas numa gaveta e engulo a chave. A sem vergonha, a egoísta, a sedutora, a curiosa, a workaholic, a criminosa. Concorda que essas mulheres tumultuam e muito a vida? Elas não tem freio para agirem. Elas entram em cena e tiram tudo do lugar. Precisam ser desativadas e eu dou um jeito. Por um tempo.
São épocas de paz na minha vida. Claro que de vez em quando, deixo uma dessas mulheres passearem pelo meu quarto. Só por alguns minutos; só com o meu "dono". Depois corro a tranca-la de novo antes que descubra um jeito de sair da gaveta sem a minha permissão. E é exatamente isso que acontece depois de um tempo. Minhas mulheres trancadas começam a sair da gaveta. Uma a uma. São espertas, vão saindo aos poucos, se revezam e quando me dou conta, estão todas lá. A sem vergonha, a egoísta, a sedutora, a curiosa, a workaholic, a criminosa(com certeza estou esquecendo algumas...ou muitas).
As vezes consigo distrai-las no palco. A ficção já salvou muita gente da loucura! Ou admite e busca tanto as possibilidades do ser, que minhas "meninas" se sentem soltas e sem fome. Por um tempo. O problema começa quando não tenho esse terreno de liberdade pra viver e elas começam a se manifestar no quotidiano. Não!!! Não pode! Pelo amor de Deus, vocês vão estragar tudo!!! Mas aí vem a egoísta e diz: como estragar tudo? Somos parte de você e tudo o que desejamos é o que você deseja. Essa é a sua vida! Vai joga-la fora? Vai silenciar seu coração e sua alma a qualquer custo? Vai matar todas nós pra viver um filme perfeito?!!... Um filme perfeito, seria aquele onde todas as minhas mulheres pudessem viver plenamente.


6 comentários:

  1. Adorei,descreveu exatamente as faces de uma mulhar,isso acontence com todas nós...Um grande abraço!!!

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  2. Somos múltiplas! Aprendemos com o tempo a camuflar as personalidades dissonantes. As vezes me vejo um pouco malévola, que sinto até gosto de sangue na boca. Ser boazinha é tão cansativo. Concordo que a ficção nos salva da piraçao! Por isso continue escrevendo! Estou adorando!

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  3. Das mulheres que são dentro, permita que elas se encaixem uma a uma na mulher que está fora. Das mulheres que são fortes, permita que sejam doidas. Das mulheres que sejam santas, permita que sejam fogosas. Das mulheres cultas, permita um filme bangbang. Das mulheres eternas, permitam que apreciem a vida. Das mulheres loucas, deixe-as sentir, sentir, sentir...

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    1. Gui estou soltando cada uma...na hora certa.😊❤️

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    2. Texto incrível por demais!! Beijo, sua linda!
      Meu blog: http://paulasaudetotal.blogspot.com.br/

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